A afirmação de que existe um
viés, uma deformação, um preconceito esquerdista
dominante na grande mídia nacional -- principalmente nas
páginas noticiosas e nos suplementos culturais, mas
também nas páginas de diversões, nas novelas de TV, em
talk shows e, enfim, em toda parte -- não é
simplesmente uma opinião. É a expressão fiel de um
fato empiricamente constatável, que até hoje só não
foi investigado e discutido livremente porque as
entidades incumbidas de investigá-lo e discutí-lo --
faculdades de jornalismo, sindicatos da classe e sites
tipo press watch -- estão igualmente a serviço da
hegemonia esquerdista, que lhes interessa, por um lado,
fomentar, e, por outro lado, ocultar enquanto não chegar
a hora de revelá-la à plena luz do dia em todo o
esplendor da sua feiúra totalitária. Quando essa hora
chegar, será tarde para protestar.
É vital para a subsistência da democracia neste país
que a ditadura informal implantada na mídia para o
controle das consciências seja denunciada, desmascarada
e desmontada enquanto ainda lhe falta a coragem de
afirmar-se como realidade de fato e de direito, como
aconteceu em Portugal e no Chile, quando comissões
autonomeadas se apossaram das empresas jornalísticas,
demitindo e calando os profissionais considerados
inconvenientes. De maneira discreta e sorrateira, mas nem
por isso menos imoral e criminosa, esses profissionais
já se vêem hoje acossados por ameaças, por boicotes,
por difamações, por toda sorte de impedimentos ao
exercício da liberdade de opinião.
Mas não se pense que esses casos condensam em si o
panorama da mentira esquerdista imposta ao público como
verdade única e incontestável.
Eles representam a ponta de um iceberg cujo corpo,
construído pelas contribuições de mil e um agentes de
influência, laboriosamente, silenciosamente,
maquiavelicamente, desde a década de 60, se constitui
basicamente de:
1. Supressão sistemática do noticiário sobre
atrocidades cometidas pelos regimes comunistas na China,
no Vietnã, na Coréia do Norte e em Cuba -- e, em
contrapartida, divulgação espalhafatosa de fatos
análogos, de escala incomparavelmente menor, ocorridos
em regimes de direita.
2. Completa abstinência de investigações sobre a
ligação entre partidos de esquerda e organizações
criminosas, mesmo quando essa ligação é admitida por
agentes criminosos presos como aconteceu com os
seqüestradores de Abílio Diniz e Washington Olivetto e
mesmo quando ela está sacramentada em documentos
públicos como os sucessivos pactos entre o PT e as Farc
assinados no Foro de São Paulo de 1991 a 2001.
3. Investigações obsessivamente repetidas de
violências -- reais ou supostas -- cometidas pelo regime
militar e, em contrapartida, total silêncio quanto aos
crimes cometidos pelos comunistas na mesma época.
4. Glamurização desmesurada dos ídolos intelectuais e
artísticos da esquerda e, em contrapartida, total
silêncio, quando não noticiário com ênfase
difamatória contra intelectuais e artistas tidos como
conservadores e direitistas -- as duas linhas convergindo
para incutir como certeza absoluta, na mente do público,
a identificação idiota de esquerdismo com inteligência
e a cultura.
Essas deformações, consolidadas pelo hábito ao longo
de três décadas, já são hoje aceitas como
procedimentos normais, de modo que aqueles mesmos que as
impõem ao jornalismo podem, ao mesmo tempo, negar a
existência delas, sem às vezes nem mesmo perceber que
estão mentindo. É que a mentira repetida se tornou
verdade.
Como leitores, como brasileiros, como intelectuais e como
líderes empresariais e comunitários, não podemos mais
nos calar diante de situação tão alarmante, que
anuncia para breve a total supressão das vozes
divergentes na mídia brasileira e a instauração do
reinado absoluto da mentira organizada.
Temos a certeza, por exemplo, de que o crescimento
irrefreado do banditismo neste país é direta e
conscientemente fomentado pela desinfirmação midiática
que, desviando as atenções do público e dos
governantes para os aspectos laterais e extrapolíticos
do problema, acabam por bloquear toda investigação
séria e portanto toda ação decisiva contra a
criminalidade.
Estamos denunciando uma situação objetiva, e não
indivíduos. Não clamamos por demissões, por
punições, trocas de nomes em cargos de confiança.
Jamais nos aviltaríamos ao ponto de usar os mesmos
métodos dos intrigantes sorrateiros que hoje dominam a
mídia brasileira.
Clamamos pela investigação objetiva do estado de coisas
e pela sua discussão aberta. A mídia é, de todas as
entidades que representam o tecido social, a primeira a
clamar por "transparência". É imoral e
inadmissível que ela trabalhe, portanto, sob tão denso
véu de opacidade, reforçando e ocultando, ao mesmo
tempo, os tenebrosos propósitos totalitários daqueles
que, ao longo de três décadas de "ocupação de
espaços", tomaram todos os postos, usurparam todos
os canais de comunicação e hoje vendem como
"pluralismo" o seu próprio debate interno,
excluídas todas as vozes discordantes. Queremos a
democracia autêntica, não um seu simulacro
estereotipado.
Apelamos aos empresários da mídia para que não se
acumpliciem, por medo ou por interesse, com a
destruição da liberdade da qual vivem e prosperam.
Apelamos aos profissionais, mesmo de esquerda, que
estejam conscientes de que a liberdade de todos vale mais
que a vitória de alguns, para que não se acovardem nem
se deixem corromper por um corporativismo grudento.
Apelamos aos anunciantes, para que pensem duas vezes
antes de subsidiar sua própria destruição. Apelamos ao
público em geral para que não se deixe mais ludibriar e
faça uso de seus instrumentos de protesto, especialmente
as "cartas de leitores".
Quando os homens bons se omitem, o reinado dos maus se
torna um destino incontornável.
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O filósofo e professor Olavo de
Carvalho é o mais importante pensador brasileiro
da atualidade. Olavo conquista o leitor por suas
idéias vigorosas, expressas numa eloqüência
franca e contundente que alia o rigor lógico e a
erudição ao mais temível senso de humor. Nas
palavras do poeta Bruno Tolentino, "a
capacidade de desenterrar do pensamento antigo
novas idéias aptas a lançar luz sobre o
presente é a marca do verdadeiro erudito; a
capacidade de encarar os problemas do presente
com aquela coragem radical apta a trazer à luz
os fundamentos últimos do conhecimento é a
marca de algo mais que o mero filósofo-padrão
de hoje em dia."
Olavo de Carvalho é um iconoclasta de
incontornável honestidade intelectual que tomou
para si a tarefa ingrata de pôr a nu os falsos
prestígios acadêmicos e expôr as falácias do
discurso político e intelectual vigente.
A tônica de sua obra é a defesa da
interioridade humana contra a tirania da
autoridade coletiva, sobretudo quando escorada
numa ideologia "científica". Para
Olavo de carvalho existe um vínculo
indissolúvel entre a objetividade do
conhecimento e a autonomia da consciência
individual.
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e-mail: lumen@openlink.com.br
|
"Olá, amigo. O Olavo de Carvalho
está respondendo aos sucessivos ataques por parte de
alguns órgãos de imprensa, fato que o impossibilita de
responder-lhe agora. Você receberá resposta o mais
rápido possível." É certo que esse e-mail,
enviado atenciosamente ao Gramática On-line como
justificativa da eventual demora com que se daria a
entrevista, atesta a vida nada consensual do filósofo e
jornalista tido por muitos como dos maiores pensadores da
atualidade. O nome Olavo de Carvalho é, para alguns,
sinônimo de polêmica, talvez porque, diferentemente dos
que se sentem apontados em seu livro O Imbecil Coletivo:
Atualidades Inculturais Brasileiras, ele se destaque por
defender a liberdade da consciência individual contra a
tirania da autoridade coletiva. Diferenças ideológicas
deixadas de lado, é indiscutível (e interessa-nos mais
nesta entrevista) a qualidade da expressão e do
conteúdo das idéias desse pensador que mais brasileiros
deveriam conhecer.
Olavo Luiz Pimentel de Carvalho, 54, nasceu em Campinas,
interior de São Paulo. Estudou Filosofia no Conjunto de
Pesquisa Filosófica da PUC do Rio de Janeiro por três
anos, sob a direção do Padre Stanislavs Ladusãns.
Apesar de não ter podido terminar o curso - fechado
após a morte de Ladusãns -, Olavo de Carvalho não quis
dar prosseguimento aos seus estudos em outra
instituição de ensino superior. "Os outros cursos
de Filosofia que eu conhecia neste país não me
interessavam, pois eram demasiado ruins", diz o
estudioso, que não se considera um autodidata, por ter
desfrutado a orientação de muitos mestres,
principalmente no campo das religiões comparadas.
Pai de oito filhos e já por quatro vezes avô, o
filósofo dedica-se, entre outras atividades, aos seus
livros (está sendo publicado o décimo quinto de sua
autoria) e artigos veiculados em grandes periódicos
brasileiros. Merecem atenção especial do pensador os
Seminários de Filosofia que conduz em São Paulo. O
curso, que atrai estudantes e profissionais de diversas
áreas, é reconhecido como um dos mais sérios e
consistentes dos que se conhecem. Encontram-se excertos
das apostilas do curso - além de inúmeros textos
publicados por e sobre Olavo de Carvalho em vários
jornais e revistas - no site www.olavodecarvalho.org,
mantido e atualizado desde maio de 98 pelo próprio
professor. A página, visitada por cerca de 600
internautas diariamente, já recebeu o título de Site do
Mês (OpenLink / abril de 99) e mostra, por si só, por
que seu criador gera tanta polêmica no meio
intelectualóide e por que a qualidade de seu texto chama
tanto à atenção. Sem dúvida alguma, é um dos poucos
sites da rede mundial de computadores que induzem a uma
reflexão realmente crítica. Uma infinidade de temas é
abordada com linguagem simples, bem-humorada, apimentada
e abrasileirada, encarrapitada em uma qualidade
gramatical de causar inveja a muitos jornalistas e
profissionais das letras. A maioria dos textos está
disposta integralmente no site, que é gratuito.
Entrevistado pelo Gramática On-line, Olavo de Carvalho
falou sobre suas preferências de leitura, sobre
filosofia e, principalmente, sobre a Língua Portuguesa e
seu estudo.
Gramática On-line - Comecemos falando um pouco sobre a
sua área. Na sua opinião, que é a Filosofia? Há
diferenças entre concepções antigas e modernas de
Filosofia?
-- A Filosofia, segundo a entendo, é a unidade do saber
realizada na unidade da consciência e vice-versa. Creio
que essa definição absorve e domina praticamente todas
as definições antigas e modernas. Aliás, foi obtida da
comparação delas.
Gramática On-line - Muitas pessoas têm dúvida quanto
à atuação profissional do filósofo. Além de
lecionar, que atividades pode exercer o formado em
Filosofia?
-- A Filosofia, em si, não é uma atividade profissional
(e espero que não se torne isso nunca), mas um tipo de
know-how que está subentendido, ou deveria estar, em
inumeráveis profissões, especialmente o ensino, a
pesquisa científica em todas as áreas, as artes, a
política, a medicina.
Gramática On-line - Atualmente, as faculdades em geral
formam realmente filósofos? Ou são só professores de
Filosofia?
-- Ninguém pode dar o que não tem nem ensinar o que
não sabe. Não há um só filósofo no nosso meio
acadêmico, e a prova é que esse meio rejeita, por medo
e preconceito, todo filósofo autêntico que apareça
dentro ou fora dele. Dizer que uma Marilena Chauí, um
Leandro Konder sejam filósofos é um ultraje à
filosofia. A primeira é uma professora de ginásio, o
segundo é um propagandista barato. Mas é só esse tipo
de gente que a universidade aceita. Já o Villém
Flusser, um gênio espantoso, acabou desistindo do Brasil
e foi publicar seus livros na Alemanha, onde
imediatamente foi reconhecido como um dos pensadores mais
originais das últimas décadas. No Brasil aqueles
entojadinhos da USP faziam pouco dele, empinavam o nariz
diante dos seus escritos porque eram publicados em jornal
como se Gabriel Marcel ou Ortega y Gasset também
não tivessem sido eminentemente jornalistas. Mário
Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva também
foram postos para escanteio, e até Miguel Reale, reitor
da USP, era discriminado dentro da sua própria
universidade. Agora, com quarenta anos de atraso, a USP
decidiu absorver o prof. Reale, concedendo ao mestre um
lugarzinho modesto ao lado de quinze micos na coletânea
Conversas com Filósofos Brasileiros, na qual ele é
obviamente o único filósofo presente. Ora, esses quatro
nomes Flusser, Reale e os dois Ferreiras
perfazem o essencial da filosofia brasileira deste
século o que vale dizer que a filosofia esteve
rigorosamente fora da universidade, por obra de
medíocres e invejosos que se empoleiraram como urubus
nas chefias de departamentos. O que a universidade
brasileira tem feito contra a filosofia é simplesmente
criminoso.
Gramática On-line - Nota- se que há muitas faculdades
de Filosofia (e Letras) espalhadas pelo país. Essa
proliferação de faculdades é boa ou ruim para o ensino
qualitativo da Filosofia?
-- É péssima. Quanto mais gente falando do que não
entende, mais confusão, mais empulhação, mais
verbalismo oco vai circular pelo país. A filosofia
universitária no Brasil só vai começar quando o MEC ou
instituição similar fizer uma edição padrão dos
escritos daqueles quatro grandes pensadores e a
distribuir como leitura obrigatória em todas as
faculdades. Não pode haver ensino da filosofia senão
com base numa filosofia vivente.
Gramática On-line - Pode- se dizer que hoje em dia há
grandes pensadores, como Sócrates, Platão, Santo
Agostinho, etc.?
-- Eric Voegelin e Xavier Zubiri superam todos os demais
pensadores da segunda metade do século XX.
Gramática On-line - Quais são seus autores favoritos
(da filosofia e de outras áreas)?
-- Em filosofia, Aristóteles, Leibniz, Sto. Tomás,
Schelling, Husserl, Voegelin, Zubiri, Lonergan, Éric
Weil, Louis Lavelle. Na literatura, Dante e Shakespeare,
Dostoievski e Stendhal, Camões e Camilo, Manzoni e
Scott, Pío Baroja, Thomas Mann e Jacob Wassermann,
Antonio Machado, Apollinaire, T. S. Eliot e William
Butler Yeats. Mas gosto também muito de ler
historiadores - meus prediletos são Taine, Huizinga e
Oliveira Martins - e obras de psicologia, principalmente
as de Viktor Frankl, Lipot Szondi e Maurice Pradines. Nas
ciências sociais, Weber e Ludwig von Mises. Em
religião, além da Bíblia, do Corão e dos Upanishads,
releio sempre a Legenda Dourada de Giacomo di Varezzo, um
livro que me parece ter certos dons miraculosos. Sou
aficionado de temas islâmicos e retorno sempre aos
livros de Ibn Arabi, René Guénon, Henry Corbin,
Frithjof Schuon, Titus Burckhardt, Seyyed Hossein Nasr.
Adoro as polêmicas de Chesterton, de Bernanos, de Nelson
Rodrigues. Gosto também de livros de memórias e
depoimentos, sobretudo de políticos, agentes secretos e
criminosos que um dia envelhecem e perdem o medo de
contar o que sabem; mas também relatos de vidas
extraordinárias: meu preferido desde a infância, relido
com encanto crescente de tempos em tempos, é Hunter, de
John A. Hunter (uma coincidência de nome e profissão):
memórias de um caçador de leões e elefantes,
certamente o melhor livro de psicologia animal que
alguém escreveu antes de Konrad Lorenz.
Gramática On-line - Diante de tantos autores, de tanta
leitura, que o senhor diz sobre o jovem? Com o
desenvolvimento da Sociedade da Informação, o jovem tem
pensado menos ou mais? Está mais fácil ou mais difícil
pensar?
-- Os computadores e a internet, em si, são um imenso
benefício para todas as atividades intelectuais. O
problema é que pessoas incapazes de absorver mesmo doses
moderadas de informação se vêem de repente submetidas
a um bombardeio informático. No mínimo, isso infunde
nelas a ilusão de que estão por dentro de todos os
assuntos. Na verdade, para tirar proveito da internet o
sujeito precisa ter as habilidades conjuntas de um
pesquisador acadêmico, de um jornalista e de um oficial
de informações. O número de pessoas que tira real
proveito da internet é ínfimo. Que fazer pelas outras?
Bem, da minha parte já faço o que está ao meu alcance:
procuro desenvolver nos meus alunos aquelas habilidades
conjuntas. Mas não creio que os demais educadores
estejam conscientes dessa necessidade, porque eles
próprios não têm em geral esse tipo de formação.
Gramática On-line - Além de ler, qual é o seu hobby?
Uma atividade que lhe proporcione prazer...
Não tenho nenhum hobby em especial. Tudo o que faço me
proporciona imenso prazer, sobretudo estudar, escrever,
dar aulas, conviver com a minha família maravilhosa e
com os meus amigos, comer, amar, rezar, dormir. Se
tivesse tempo livre, iria caçar e andar a cavalo, coisas
que fiz muito na infância. Música, ouço de vez em
quando, mas sempre as mesmas, principalmente Mozart e
Wagner. Filmes, já vi todos os que queria ver.
Gramática On-line - Falemos um pouco sobre a Gramática.
Quais são os primeiros registros dos estudos lógicos e
gramaticais?
-- Os primeiros estudos gramaticais no Ocidente
resultaram da tentativa de aplicar à linguagem,
considerada materialmente, os conceitos da lógica de
Aristóteles. Mas a aplicação foi muito rasa e um
logicismo extemporâneo deixou cicatrizes em toda a
gramática ocidental. Quem estudou isso a fundo e
procurou corrigir essas distorções foi Eugen
Rosenstock-Huessy, cujo livro A Origem da Linguagem deve
sair em breve pela Biblioteca de Filosofia que dirijo na
Editora Record.
Gramática On-line - Ao seu ver, qual é a melhor maneira
de desenvolver no cidadão a habilidade de escrita e
leitura?
-- Expliquei algo disso no meu artigo "Aprendendo a
escrever" (O Globo, 3 fev. 2001). Primeiro o sujeito
tem de adquirir, pela leitura de obras de história, de
cronologia e de bibliografia, um senso da unidade do
campo das letras. Um bom começo é a História da
Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux, ou a série
Great Books da Encyclopaedia Britannica. Mas em seguida,
ou ao mesmo tempo, tem de ler os clássicos e tentar
imitá- los, formando um repertório de meios de
expressão. Terceiro, tem de manter esse repertório em
contínuo acréscimo e desenvolvimento, pela prática da
escrita.
Gramática On-line - Entre as características de Olavo
de Carvalho, uma que merece destaque é a habilidade
lingüística. O seu texto mostra-se, ao mesmo tempo,
fiel às normas do ensino prescritivo do idioma (a
chamada norma culta da língua) e acessível a um grande
número de leitores. Leitura qualitativa e quantitativa
basta para que se alcance essa habilidade? O domínio das
estruturas fonética, morfológica e sintática é
realmente necessário?
-- Há dois tipos de pessoas: as que aprendem por
indução e as que primeiro precisam conhecer a regra
geral para depois reconhecê-la na prática. O
aprendizado da gramática é necessário a ambas, mas em
momentos diferentes. As do primeiro tipo (e eu mesmo
estou entre elas) devem acumular uma grande experiência
de leitura antes de ter a primeira lição de gramática,
porque já terão aquela experiência que lhes permitirá
reconhecer do que a gramática está falando. Mas há
pessoas que precisam estudar gramática primeiro. O
educador é que tem de ter o tirocínio para perceber o
que é melhor para o seu aluno.
Gramática On-line - Como o jornalista Olavo de Carvalho
vê a situação dos textos impressos dos meios de
comunicação. Os cursos de Jornalismo estão levando a
sério a abordagem (ou estudo) da linguagem? Qual é a
solução?
-- A linguagem da mídia é um compactado de cacoetes
funcionais. O sujeito que aprende a escrever com base
nela vai tender inevitavelmente a compactá-la ainda
mais. Só os grandes escritores têm o gênio, o
espírito do idioma. É preciso aprender a escrever com
Camilo e Machado, e só depois simplificar o idioma para
adaptá-lo às necessidades da mídia. Para fazer comida
desidratada é preciso partir da comida autêntica: se o
sujeito desidrata o que já vem desidratado, acaba
comendo areia.
Gramática On-line - O senhor estudou profundamente a
Gramática ou, como explicam alguns jornalistas, apela na
maioria das vezes à intuição para escrever
adequadamente?
-- Não sei quem foi que disse que cultura é aquilo que
sobra quando a gente esquece o que aprendeu. Fiz muitos
exercícios de gramática, seguindo especialmente a velha
Gramática Metódica de Napoleão Mendes de Almeida, e
procurei incorporar o aprendizado de tal modo que a regra
aprendida funcionasse automaticamente. Hoje, que escrevo
com correção, esqueci metade da nomenclatura gramatical
e ela não me faz falta nenhuma. A gramática é um
estudo reflexivo que pressupõe de certo modo o
conhecimento prático do idioma e não pode substituí-
lo. Mas, como eu já disse, as mentes muito dedutivas e
analíticas precisam já de um pouco de gramática no
começo do aprendizado.
Gramática On-line - Tem-se falado muito sobre a
influência da língua na sociedade e vice-versa. A
difusão intolerante da Gramática tradicional dá
origem, segundo alguns sociolingüistas, ao preconceito
lingüístico, sentimento por meio do qual se mantém o
desrespeito às variantes lingüísticas divergentes da
norma culta, da variante de prestígio. O senhor acha que
o ensino rigoroso da Gramática, como era antigamente,
pode contribuir para a manutenção desse preconceito? A
norma culta é, como dizem, mais uma das imposições de
uma minoria que visa a manter as classes sociais
distantes umas das outras?
-- Esses sociólogos são simplesmente charlatães que
querem tirar proveito político de uma observação
falseada da realidade. Não estamos na Inglaterra, onde o
falar correto ou incorreto basta para identificar
imediatamente a classe social a que o sujeito pertence.
Aqui, as classes altas falam e escrevem tão errado
quanto o povão, e só quem se interessa pela norma culta
são escritores e gramáticos pobretões e
marginalizados. Por outro lado, exigir que o aluno, em
vez de aprender a norma culta geral, se apegue
eternamente aos modos de falar do seu bairro ou da sua
classe social, isto sim é discriminá-lo, barrando-lhe o
acesso a uma norma que existe justamente para ser o
terreno comum da comunicação democrática. Os inimigos
da norma são obscurantistas que querem prender cada
pessoa no gueto lingüístico e social da sua infância,
bloquear a comunicação social e inviabilizar a
democracia. Os que inventaram essa ideologia sabem
perfeitamente que o propósito dela é criminoso. Os que
a repetem como papagaios do alto de suas cátedras são
apenas tolos desprezíveis.
Gramática On-line - Na sua opinião, é mais eficaz
combater o preconceito lingüístico ou difundir de
maneira mais figurativa os conhecimentos do idioma?
-- O único preconceito lingüístico que existe no
Brasil é contra a linguagem correta. Ninguém é
criticado neste país porque fala errado, mas, se usa uma
única palavra que a platéia desconheça, é rotulado
imediatamente de pedante, e assim todos contribuem para o
empobrecimento do idioma. Há na sociedade brasileira uma
espécie de populismo atávico, regressivo, mórbido e
masoquista. Temos de acabar com ele, e qualquer ensino da
gramática é útil para esse fim.
Gramática On-line - Certa vez, quando o Gramática
On-line julgou que houvesse uma falha de digitação no
seu site (a palavra muçulmano foi escrita com dois ss),
o senhor disse que escreveu intencionalmente a forma que
transgride a registrada. Referiu-se, ainda, a um sistema
fonético independente, de sua autoria. O senhor poderia
explicar em que consistem essas ações dissidentes?
-- Foi apenas um truque que inventei para facilitar o
aprendizado do árabe clássico. O sistema internacional
de transliteração é complicado e incoerente. Em árabe
a escrita pode ser abreviada mediante a omissão das
vogais, como numa taquigrafia. Na transliteração
internacional você nunca sabe se as letras são vogais
ou consoantes. Inventei então uma transliteração na
qual as consoantes eram grafadas em maiúsculas e as
vogais em minúsculas. Só que para isso era preciso que
cada letra árabe correspondesse a uma e uma só letra
portuguesa. Naturalmente, isso acabava por afetar os
próprios termos árabes aportuguesados, como por exemplo
"mussulmano", que é uma adaptação de
musslim. Na minha transliteração, musslim se escreve
MuSSLiM, indicando que, na escrita corrente - por
exemplo, num jornal árabe -, se escreveria apenas MSSLM.
A utilidade disso é extraordinária para o aluno
estrangeiro, porque, para o árabe, a consoante, conforme
o contexto, já sugere imediatamente a vogal que a
acompanha, e para nós não, o que é um problema, já
que as declinações (nominativo, genitivo e acusativo)
são indicadas precisamente pelas vogais. Há um belo
livro de introdução ao árabe, Arabic Made Easy, de
Abdul Hashim, que estou adaptando para o português com a
minha transliteração. Mas ainda vai demorar para ficar
pronto, porque tenho pouco tempo para trabalhar nisso.
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